segunda-feira, 17 de abril de 2017

1 escovada

"Barulheira na rua. Risadas que enchem esse sufocante ar de verão. Imagino os olhos dos jovens da minha idade antes de saírem de casa: acesos, vivos, ansiosos por uma noitada divertida. Vão passar a noite na praia, cantando acompanhados por um violão. Alguém vai se afastar lá para o fundo, onde a escuridão cobre tudo, e sussurrar palavras infinitas no ouvido de outro alguém. Alguém, amanhã, vai nadar no mar aquecido pelo sol matutino, tenebroso guardião de uma vida desconhecida. Eles vão viver e saberão cuida da própria vida. Ok, tudo bem, eu também respiro, biologicamente está tudo certo comigo... Mas tenho medo. Tenho medo de sair de casa e encontrar olhares desconhecidos. Eu sei, eu vivo em conflito permanente comigo mesma: tem dias em que estar no meio dos outros me ajuda, e sinto uma irresistível necessidade disso. Em outros, expulso preguiçosamente o gato da minha cama, me deito com a barriga pra cima e penso... Talvez coloque algum CD, quase sempre música clássica. Sinto-me bem com a cumplicidade da música e não preciso de mais nada. Mas essa barulheira está me atormentando, se que nessa noite alguém está vivendo mais do que eu. E eu vou ficar dentro desse quarto ouvindo o som da vida, vou escutá-lo até que o sono me abrace."

Melissa Panarello

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